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Maripossa

Tudo que tem asas deve voar,por isso a borboleta selvagem o faz sem nunca olhar para onde.

Tudo que tem asas deve voar,por isso a borboleta selvagem o faz sem nunca olhar para onde.

Maripossa

10
Mar10

Não Posso Adiar o Amor

maripossa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa


22
Out08

Uma Voz na Pedra

maripossa

 
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio. 
 Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
 Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
 De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
 A minha tristeza é a da sede e a da chama.
 Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
 O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
 Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
 Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
 Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
 Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
 Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
 Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

 

António Ramos Rosa

 

29
Jul08

Meio Dia

maripossa

Contemplo a mulher adormecida.Ocupa uma metade do terraço, longa e voluptuosamente extensa, constelada de um silêncio que é todo aéreo e ondulante. Em volta o mundo converteu-se num pomar unânime.É um meio-dia interminável. Tudo está imóvel, fixo como um centro. As superfícies lisas, brancas, sem reflexos, sem sombras. Imperceptível, insondável é o gesto fulgurante da imobilidade. A intensidade da presença identificasse com o vazio da ausência. O meu corpo entende o corpo da mulher, enrola-se nas voluta da sua música silenciosa, adere às paisagens brancas do seu sono completo. Imóvel, não procuro palavras, nem as mais leves e transparentes: sinto-me fluido, extremamente aberto. Conheço as sensações da mulher nua: água, terra, fogo e vento. Conheço-a e amo-a através delas, numa relação de felicidade intensa e ao mesmo tempo imponderável. O sono da mulher é de horizontes múltiplos e em si germina o centro abrindo o aberto sem limites.

 

António Ramos Rosa

 

 

20
Jun08

Escrevo-te com o fogo e a água

maripossa

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa. Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde. O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave. Um fruto repousado,uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado, uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma? Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore. As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu, o grande sopro imóvel da primavera efémera.

 

António Ramos Rosa

 

 

 

07
Mar08

Poema dum Funcionário Cansado

maripossa

Tão em voga actualmente,sempre a masacrar estes trabalhadores não é brincar com coisas sérias! mas mesmo sérias, não resisti a este texto ou prosa como queiram. Já este grande poeta,lhe apeteceu fazer esta prosa a um funcionário"público" não sei o porquê porque será! mas o fez e bem.

 

Poema dum Funcionário Cansado
                 
 
A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 
Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números 
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida 
num quarto só.

 

António Ramos Rosa

 


 

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